Nos últimos meses dá pra sentir a pressão batendo na porta de praticamente toda companhia de saneamento do Brasil. A Sabesp fechou com a Vivo um contrato de R$3,8 bilhões pra transformar 4,4 milhões de hidrômetros em São Paulo e São José dos Campos em pontos conectados via NB-IoT. O setor já chama isso de maior projeto de IoT do mundo voltado à medição de água.

Quando um projeto desse tamanho vira manchete, ele também vira régua. Diretorias de companhias de saneamento em todo o Brasil estão sendo cobradas: “e nós, quando vamos ter isso também?” A pergunta é legítima. As perdas comerciais ainda comem uma fatia enorme da receita do setor, e o consumidor já se acostumou a acompanhar consumo em tempo real em praticamente tudo, menos na conta de água. Ignorar essa pressão seria ingenuidade.

Mas tem uma pergunta que fica escondida no meio do barulho: será que o caminho certo é o mesmo caminho? Será que toda companhia de saneamento do país consegue, ou deveria tentar, reproduzir exatamente o que a Sabesp fez?

A Sabesp que virou modelo não é mais estatal

Boa parte da capacidade da Sabesp de fechar um contrato desse porte nasceu de uma mudança que costuma passar batido na narrativa: a companhia deixou de ser estatal. Hoje a Sabesp opera num modelo de capital disperso, mais perto de uma corporation do que da sociedade de economia mista tradicional.

O contrato com a Vivo vai até 2039, e a operadora montou laboratório e equipe dedicada só pra esse projeto. Uma companhia ainda presa à Lei de Licitações, com conselho de composição predominantemente política e orçamento aprovado ano a ano, dificilmente consegue negociar algo parecido com a mesma agilidade. É desenho institucional, não falta de competência técnica.

A alavanca com a operadora também não é igual pra todo mundo

Uma companhia de 4,4 milhões de hidrômetros senta numa mesa de negociação diferente de uma companhia de 200 mil. A Vivo fechou 2025 com 18,9 milhões de acessos IoT no Brasil, na frente de Claro (16,6 milhões) e TIM (7 milhões), e parte dessa liderança é fruto justamente de contas do tamanho da Sabesp, que justificam investimento dedicado em infraestrutura, engenharia de bateria e SLA sob medida. Uma companhia média ou pequena não tem esse mesmo poder de barganha. Consegue contratar NB-IoT, sim. Só que paga preço mais próximo de tabela, com menos prioridade de atendimento e menos margem pra exigir customização.

Cobertura no mapa não é sucesso no campo

As operadoras informam cobertura de NB-IoT em praticamente todo município do Brasil hoje. A tecnologia deixou de ser exclusividade de grande centro há alguns anos. Só que esse número nasce de modelo de propagação de rede, calculado a partir da posição das torres, pensado pra sinal de superfície. Não pra medição dentro de uma caixa de hidrômetro enterrada, com tampa de concreto ou metal, às vezes longe da torre mais próxima. Constar como “município coberto” no mapa da operadora não garante sinal estável a um ou dois metros abaixo do nível da rua.

Todo hidrômetro já tem data pra ser trocado

Existe um fato regulatório que tira um pouco da urgência artificial dessa discussão. Pela portaria Inmetro nº 155/2022, todo hidrômetro em uso precisa passar por verificação metrológica em intervalo não superior a 7 anos, com substituição recomendada nesse prazo. Na prática, toda companhia de saneamento do país já troca uma fatia relevante do próprio parque todo ano só pra cumprir esse ciclo. A Sanepar, por exemplo, trocou 364 mil hidrômetros em 2025 e projeta mais 380 mil em 2026, dentro de um parque de 4,4 milhões de imóveis atendidos. A pergunta real não é “vou modernizar ou não”. É o que colocar no lugar quando a hora da troca de rotina chegar, e se vale acelerar esse ciclo com capital extraordinário ou deixar a tecnologia entrar de forma orgânica.

O time que vai operar isso também entra na conta

Trocar hidrômetro mecânico por um medidor com comunicação remota é a parte fácil. O mais difícil é a companhia trocar a lógica operacional: sair de “mandar alguém ler e depois faturar” pra “monitorar um painel e agir sobre alerta em tempo real”. Isso exige gente nova, processo novo, cultura nova. Hardware sozinho não resolve. Um sistema de alerta só ajuda de verdade quando existe alguém do outro lado capaz de interpretar o padrão de consumo, entender a causa provável e decidir a ação certa — e isso pesa tanto quanto a tecnologia de rádio escolhida.

Sobra ainda o tema de quem faz a leitura hoje. A Sabesp tem 2.300 leituristas, e o discurso público da companhia foi de recolocação interna, não de corte. Plausível, numa empresa desse tamanho, com dezenas de áreas pra absorver gente. Numa autarquia municipal ou numa companhia regional menor, sem essa mesma pulverização de funções, resolver a questão trabalhista de uma hora pra outra é decisão política tanto quanto técnica. E costuma travar qualquer projeto que tente pular direto pro fim da leitura em campo.

O meio de campo existe

Aqui entra a pergunta mais interessante: dá pra capturar boa parte do ganho da medição remota sem pular direto pra AMI (rede fixa, leitura de hora em hora, comunicação nos dois sentidos)? Existe uma etapa intermediária chamada AMR: leitura automática, mas ainda dependente de alguém, ou algum veículo, passar perto do medidor. E ela segue extremamente relevante. Não por atraso. Por economia de escala que ainda funciona pra boa parte das concessionárias.

Vale desmontar a promessa de “tempo real” que costuma vir de brinde com NB-IoT e LoRaWAN, as duas tecnologias mais comuns em rede fixa no Brasil hoje. Na prática, o medidor acumula leitura hora a hora e transmite em lote, geralmente uma vez por dia, com as últimas 24, 36 ou 48 horas de consumo dentro do mesmo pacote. Não é raro esse pacote falhar por vários dias seguidos. Então mesmo no cenário ideal, sem falha nenhuma, já existe um atraso de um dia inteiro embutido no processo. Detecção de vazamento não acontece em horas. Acontece em dias. No Brasil a conta complica ainda mais: a maioria dos prédios tem caixa d’água, e consumo alto de madrugada não é sinal automático de vazamento. Pode ser só o reservatório enchendo. Detectar vazamento de verdade, num projeto de milhões de medidores, exige backoffice robusto, gente treinada pra separar padrão de vazamento de padrão de caixa enchendo. Não é alerta automático que dispara sozinho.

Tem uma peça que reduz ainda mais essa conta: muitos hidrômetros mecânicos modernos já saem de fábrica com uma interface pronta pra receber um módulo de rádio depois. Não precisa trocar o medidor, nem reabrir a certificação metrológica dele junto ao Inmetro. A companhia continua comprando hidrômetro dentro do próprio ciclo normal de manutenção, só prestando atenção pra escolher um modelo com essa interface. Quando decidir migrar pra leitura remota, o rádio se acopla no parque que já está instalado. Não é exclusividade de fabricante nenhum, é caminho já consolidado no setor. Pra companhia cujo parque já é dessa categoria, a conta de migrar pra AMR fica menor ainda: nem hidrômetro precisa trocar.

O walk-by preserva quase tudo que já existe: rota, equipe, know-how de campo. Só troca a caneta pelo coletor de rádio. Já o drive-by abre uma porta pouco explorada no Brasil: por que não aproveitar uma frota que já roda toda rua da cidade, com frequência conhecida? Um acordo de cooperação com a companhia de limpeza urbana pra equipar os caminhões de coleta com receptor de drive-by é uma ideia que já aparece em estudos internacionais sobre sensoriamento por veículos de serviço público. Caminhão de lixo é citado como categoria reconhecida ao lado de ônibus e frota dedicada. A ressalva é honesta: a resolução temporal fica atrelada à frequência de coleta, normalmente duas a três vezes por semana, não diária. Ainda assim, é um salto enorme frente ao ciclo mensal de hoje. Sem comprar veículo nenhum. E com o benefício extra de criar cooperação natural entre duas autarquias da mesma prefeitura.

A pergunta certa não é “AMI ou nada”

O projeto da Sabesp é, sem dúvida, um marco pro setor, e vale estudar cada escolha técnica que Vivo e Sabesp fizeram. Mas tratá-lo como modelo único a ser copiado é ignorar que ele nasceu de uma combinação bem específica: escala de milhões de pontos, capital de uma privatização recente, parceiro de telecom disposto a montar operação sob medida. Poucas companhias do país reúnem as três coisas ao mesmo tempo.

A pergunta que toda companhia de saneamento deveria estar se fazendo não é “quando vamos ter o que a Sabesp tem”. É “qual arquitetura de leitura remota cabe na minha escala, na minha regulação tarifária, na minha equipe e na minha geografia hoje”. A resposta muda de empresa pra empresa. Pra algumas, é NB-IoT de ponta a ponta. Pra outras, começar pelos grandes consumidores e industriais. Pra outras ainda, só modernizar a leitura que já existe antes de reinventar tudo.

O importante é que, seja qual for o caminho, ele converse com o que a companhia já tem: parque de hidrômetros, equipe, sistemas. Em vez de amarrar a operação inteira a um único fornecedor de rede ou de hardware só porque foi a escolha de quem tinha 4,4 milhões de pontos pra negociar.


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